8 de abr. de 2010

Águas de março em abril

“Chuva causa caos no Rio de Janeiro”. Aterrorizante, não? Primeiramente parabéns aos cariocas mal educados. Aprenderam a lição?! Em segundo, parabéns aos maus arquitetos e engenheiros da cidade. Gostaram do trabalho?! E em terceiro uma salva de palmas para o prefeito displicente. A vista ta bonita de onde você está?

Agora o sarcasmo acaba. A noite de segunda feira foi tensa e triste. Ao descer do ônibus em que estava a primeira coisa que eu vi boiando sobre as ruas alagadas foi o lixo. Muito lixo. É desgostoso ver como as pessoas pouco se importam com o bem estar alheio, ou pelo menos que tenham um mínimo de respeito e consciência que a saúde coletiva começa pelo cuidado individual dos cidadãos. Todos sabem da velha história do “lixo que é jogado no chão vai para os bueiros entupidos da sua rua”, mas na prática essa regra é simplesmente esquecida. Não só nas ruas, mas como também nas praias, aterros indevidos e outros lugares impróprios. Agora, sabe aquele papelzinho que você jogou no chão enquanto corria? Está de volta em sua porta. Sabe o óleo que você jogou pia abaixo ou só jogou no saco de mercado e mandou para o caminhão de lixo? Está grudado em suas paredes. De qual quer modo o lixo mal endereçado causa transtornos irreparáveis para a saúde do homem e do ambiente.

Mas não foi só esse problema que causou toda a inundação. Recebi a irritante notícia de que o escoamento das águas pluviais da cidade foi totalmente ignorado durante muitos anos. Antigamente a ampliação e construção de estradas eram realizadas em cima das vias de escoamento. E somente após 2003 virou parte do planejamento das obras instalarem devidamente bueiros nas estradas, oferecendo o suporte necessário para que as águas pudessem fluir normalmente para os canos. Óbvio que é indispensável e muito eficiente a construção de novas estradas para o bom funcionamento da cidade com a enorme quantidade de carros que circulam todos os dias. Mas é também um desaforo, uma curtição com as nossas caras a construção de uma cidade tão linda, tão bem desenhada e construída visando apenas a poesia aos nossos olhos. Será que ninguém ouviu falar das “águas de março” (de abril, no caso) que dão final ao nosso verão com uma boa rajada de chuvas?! A saúde e a qualidade de vida foram camufladas atrás de calçadas bem gingadas e belos prédios. É como uma belíssima ilusão sob nossas casas.

E pra finalizar a minha lista de ira, uma reclamação ao nosso prefeito que ficou em cima do muro. Pessoas ficaram presas no centro da cidade de nove da noite até as quatro do dia seguinte, muitos dormiram na estação, outros abandonaram seus carros durante as enchentes. A cidade ficou o verdadeiro caos e terror e não foi decretado calamidade pública, nem paralisação. Os estudantes ficaram sem aulas, mas e os trabalhadores que tiveram que se virar, lotar mais ainda os trens, construir um barco ou tirar seus submarinos das garagens?! Pois só assim era possível se locomover na cidade debaixo d’água. Até agora, 154 mortos não foram suficientes pra você, prefeito? Pra mim, foi um abalo enorme. Por exemplo, minha tia mora num bairro onde três de quatro estradas que possibilitam a saída da área estão interditadas, tornando quase impossível sua locomoção. O que é inconcebível para ela, já que é advogada e precisa cumprir prazos com o fórum, que por mando do prefeito não foi fechado, já que não “há desespero nessa situação”. Há sim! E agora? Como é resolvido esse problema?! E esse é um dos pequenos infortúnios entre mil outros piores que a população enfrenta. Pessoas perderam casas, parentes, documentos, a vida. Se isso não é calamidade, eu não sei o que mais esperar. É evidente que não há cidade que espere 250mm de chuva em 24hrs e nem há culpa para esse tipo de acontecimento. Mas também não há lugar que suporte tanta desorganização, não é Brasil?
P.

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